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Arcabouços da memória

 

O ocre e suas diferentes tonalidades não são apenas cores nos trabalhos de Adriana Affortunati. Incrustados na obra, esses tons carregam resquícios da memória. Há certa viscosidade aderente nas lembranças da artista. Sendo quase uma espécie de betume amorfo que se alastra, suas reminiscências são arrancadas de seu corpo na medida em que se transformam em uma arquitetura da memória.

A instalação O que me crio (2008), feita com caixas de papelão, linha vermelha, barbante, e pequenos objetos pessoais de seu passado, é um armazém de relíquias. Gavetas, cantos, escaninhos não são suporte para esses objetos, mas uma edificação de recantos da memória. As marcas do passado estão lá, mas são esquivas, veladas, fragmentadas. Arquitetar lacunas significa costurar o vazio entre objetos. Sustentar-se nesse intervalo, e lançar linhas nas margens a fim de erguê-lo e suportá-lo, é um trabalho de fôlego. Como um afogado em busca das bordas ou um alpinista que engancha suas âncoras em pequenas saliências da montanha, Adriana Affortunati procura objetos capazes de aportar evasões da memória.

Na exposição coletiva Entreatos, na Casa Contemporânea, Adriana apresenta uma pequena escada, bastante precária, flutuando no corredor externo da casa em reforma. Outra escada, paralela ao teto, ajuda a compor Céu de cafundéu (2010). Esses degraus não conduzem as pernas, mas o olhar. A direção é o teto, que revela a memória do local. Sem revestimento, as tripas do lugar estão escancaradas. A estrutura de madeira do teto faz uma bela composição com a obra feita com o mesmo material. Cacos de cimento, espalhados sobre uma tela de aço, formam um desenho enigmático, cuja beleza é ressaltada com a incidência da luz que vem das frestas do telhado.

É interessante notar o recorrente uso da linha vermelha no conjunto das obras dessa artista. O vermelho desses fios indica que, embora conteúdos do passado sejam componentes importantes da memória, ela pulsa viva no presente. Essas veias vibrantes expressam, simultaneamente, feridas e cicatrizes. Costuras, nesse caso, são espécies de ataduras. Cingem o irreconciliável.

Cascas de ovos costuradas indicam a precariedade do Abrigo (2010), que precisa ser cuidadosamente remendado. O risco é de que, ao alinhavar fissuras, as bordas se estilhassem ainda mais. Escavar a memória tem efeito semelhante: cavoucadas, as chagas amortecidas pelo tempo podem sangrar ou gangrenar.

Não só de dores é feito o passado. As marcas de pó de café no algodão da obra Livro (2010) mostram a delicadeza e a suavidade da memória.

Trata-se de uma espécie de livro- nuvem, exposto no relicário de uma casa. Páginas contínuas escorregam desse vão para os degraus da escada, formando curvas e dobras. Convite para leitura do inefável, esse objeto lança o espectador ao vôo. Planar através das nuvens transcorridas é viajar por desenhos, escrituras, figuras. Ler esse livro é refugiar-se em suas dobras e desvios. O objeto transporta para uma zona onírica, na qual as lembranças se tornam ficção.

Continente (2010), por sua vez, forma uma espécie de mapa do continente sul-americano com coadores e tintura de pó de café. O título indica uma geografia de manchas, marcas, rastros. Essas diferentes bordas costuradas umas às outras, assim como os tecidos pelos quais houve a passagem da água quente, preservam sabores, o calor do líquido, o aroma do café. São registros de uma tarde de conversa, uma noite fora, uma madrugada de trabalho. Nesse sentido, esse Continente (2010) geográfico também contém, guarda, acolhe sensações efêmeras.

O manto, feito de saquinhos de chá costurados e manchados, também obedece a lógica semelhante. O título, porém, dá novas pistas. Tarde (2013) é o período do dia adequado para um bom chá.

Numa tarde de inverno, numa conversa entre amigos, numa noite solitária diante da TV, o chá é substância que aquece, integra, consola. Entretanto, a palavra tarde tem outras implicações. Tarde é termo usado para aludir a promessas, anseios, desejos postergados ou negligenciados. Dizemos; “Agora é tarde” para exprimir sonhos acalentados que deixamos de lado. Também é palavra usada pelas mães para impor limites aos filhos, que querem prosseguir em suas atividades além da hora convencional. O tempo tarde é um tempo deslocado, fora de lugar e de possibilidade.

 

Uma ambiguidade faz parte desses trabalhos: por um lado, a materialização da memória significa desgarrar-se da consistência afetiva do passado, infiltrado em seus tecidos. Por outro, parece ser difícil se desvencilhar de lembranças e descolar a obra de sua trajetória. Sendo a memória intangível, essas obras são uma busca incessante por apreender indícios de uma história pessoal. Em muitas delas, frases obscuras indicam a potência do passado na vida recente. Invento minhas próprias grades suscita a pergunta sobre o que verdadeiramente nos prende. Receios, culpas, incertezas são fantasmas longínquos que assombram o presente. Ou A gente insiste em acreditar nas palavras, que revela a insuficiência do verbo, mas a necessidade perpétua de proferi-lo.

Palavras ou objetos recriam o passado sem jamais alcançá-lo. Uma distância intransponível se anuncia a cada passo dado, rumo aos  arcabouços da memória. Adriana Affortunati, todavia, transpõe para a atualidade pedaços, estilhaços, ruínas que restaram dos caminhos percorridos. Nem longe, nem perto, esse passado a alimenta.

 Alusões a ele, porém, são como as frases inscritas, quase ilegíveis.

Pela primeira vez, as palavras se destacam e aparecem emolduradas nesse conjunto de frases que compõe a obra Dias (2012). Quase como imagens de reminiscências, esses fragmentos reverberam principalmente pelos intervalos deixados entre as molduras. O hiato entre os fragmentos ressoa de forma prolixa.

São palavras que se comportam como aquelas proferidas na peça Dias felizes, de Beckettº. Winnie, personagem atolada no meio do palco, se perde entre as miudezas do cotidiano. Seus pensamentos entrecortados são pronunciados e caem rapidamente no nada. As obras de Adriana Affortunati se aproximam dos pequenos dilemas de Winnie: coleções de restos à beira do nada ressuscitados nessas formas impregnadas de passado.

 

º BECKETT, S. Dias Felizes. São Paulo: Cosac Naify, 2010

 

                                                                                             Alessandra Affortunati Martins Parente

 

 

 

                                                                                            catalogo da coletiva Fronteiras: Lugar do estrangeiro: 

http://issuu.com/alessandraaffortunatimartinsparente/docs/catalogo__20_. 

 

Memory arrays

 

The ocher and its different shades are not only colours in the works of Adriana Affortunati. Embedded in the work, these tones carry remnants of memory. There is a certain stickiness in the artist's memories. Being almost a kind of amorphous bitumen that spreads, its reminiscences are torn from her body as they become an architecture of memory.

 

The O que me crio (2008) installation, made with cardboard boxes, red line, string, and small personal objects from her past, is a warehouse of relics. Drawers, corners, bins are not supported for these objects, but a building of nooks and crannies of memory. The marks of the past are there, but they are elusive, veiled, fragmented. Architecting gaps mean sewing the emptiness between objects. Holding on to this interval, and throwing lines on the banks in order to lift it up and support it, is a labor of breath. Like a drowned in search of the edges or a climber that hooks its anchors in small protrusions of the mountain, Adriana Affortunati looks for objects capable of contributing evasions of the memory.

 

In the collective exhibition Entreatos, at Casa Contemporânea, Adriana presents a small staircase, quite precarious, floating in the external corridor of the house under renovation. Another ladder, parallel to the ceiling, helps to compose Céu de cafundéu (2010). These steps do not lead our legs, but our eyes. The direction is the ceiling, which reveals the memory of the place. Uncoated, the casings of the place are wide open. The wooden structure of the ceiling makes a beautiful composition with the work done with the same material. Cement slabs, scattered on a steel screen, form an enigmatic drawing, whose beauty is highlighted by the incidence of light coming from the cracks in the roof.

 

It is interesting to note the recurring use of the red line in all the works of this artist. The red of these strands indicates that although contents of the past are important components of memory, it pulsates alive in the present. These vibrant veins simultaneously express wounds and scars. Seams, in this case, are species of bandages. Stick to the irreconcilable. Sealed eggshells indicate the precariousness of Abrigo (2010), which needs to be carefully patched. The risk is that, when cracking cracks, the edges would shatter even more. Digging memory has a similar effect: caved, time-shedding sores can bleed or gangrene.

 

Not only of pain is the past. The brands of coffee powder in the cotton Book (2010) show the delicacy and softness of memory. It is a kind of book-cloud, exposed in the shrine of a house. Continuous pages slip from that gap to the stairs, forming curves and folds. Invitation to read the ineffable, this object launches the viewer to a flight. To glide through the clouds is to travel through drawings, scriptures, figures. To read this book is to take refuge in its folds and deviations. The object transports to a dream-zone, in which memories become fiction.

 

Continente (2010), in turn, forms a kind of map of the South American continent with strainers and coffee powder dye. The title indicates a geography of spots, marks, traces. These different edges are sewn together, as well as the tissues through which the hot water passed, preserve flavors, the heat of the liquid, the aroma of coffee. Records of an afternoon of conversation, a night out, a working dawn. In this sense, this geographic Continent (2010) also contains, guard, welcomes ephemeral sensations.

 

The cloak, made of sewn and stained tea bags, also obeys similar logic. The title, however, gives new clues. Tarde (2013) is the time of day suitable for good tea. One winter afternoon, in a conversation between friends, on a lonely night before TV, tea is a substance that heats, integrates, consoles. However, the word "tarde"* has other implications. "Tarde" is a term used to allude to promises, yearnings, desires neglected or neglected. We say; "Now it's late" to express cherished dreams that we set aside. It is also a word used by mothers to impose limits on their children, who want to continue their activities beyond conventional time. Late time is a time of displacement, out of place and possibility.

 

An ambiguity is part of these works: on the one hand, the materialization of memory means straying from the affective consistency of the past, infiltrating its tissues. On the other hand, it seems difficult to get rid of memories and take off the work of its trajectory. Being the memory intangible, these works are an incessant search for apprehend signs of a personal history. In many of them, obscure phrases indicate the potency of the past in recent life. I invent my own grids raises the question of what truly holds us. Fears, guilts, uncertainties are distant ghosts that haunt the present. Or We insist on believing in words, which reveals the insufficiency of the verb, but the perpetual need to utter it.

 

Words or objects re-create the past without ever reaching it. An insurmountable distance is announced at every step, towards the frameworks of memory. Adriana Affortunati, however, transposes for the present pieces, shrapnel, ruins that remain of the paths traveled. Not far or near, this past feeds her.  Allusions to it, however, are like the inscribed sentences, almost illegible.  For the first time, the words stand out and appear framed in this set of phrases that compose the work Dias (2012). Almost as reminiscence images, these fragments reverberate mainly through the intervals left between the frames. The hiatus between the fragments resounds in a prolix way. Words that behave like those uttered in Beckett's Happy Days.º Winnie, a character stuck in the middle of the stage, is lost among the daily offal. His choppy thoughts are pronounced and fall quickly into nothingness. The works of Adriana Affortunati approach the small dilemmas of Winnie: collections of remains on the edge of nowhere resurrected in these impregnated forms of the past.

 

 

 

 

   Alessandra Affortunati Martins Parente

 

 

 

º BECKETT, S. Dias Felizes. (Happy Days) São Paulo: Cosac Naify, 2010

 

                                                                                            Catalog of the collective exhibition  Fronteiras: Lugar do estrangeiro 

http://issuu.com/alessandraaffortunatimartinsparente/docs/catalogo__20_. 

 

 

 

 

 

* :Tarde" in Portuguese means both: late and afternoon