Helena

 

Feita de trapos de diferentes texturas e cores, Helena é uma obra que remete a uma narrativa feminina, cuja forma seria mítica. Manchados e rasgados, esses farrapos de tecido denunciam a passagem do tempo ou aquilo que dele pôde sobreviver. São, portanto, indícios de antigas histórias que só podem ser reconstituídas como mito. Esses restos de tempo impregnados na matéria do trabalho cumprem a função de tinta, assim como o colorido natural dos panos e suas diferentes texturas. Dessa composição nasce, assim, algo muito próximo da pintura, que, nesta peça específica, compreende o caimento de cada tecido e sua disposição na tela de madeira, bem como a combinação dessas partes no todo da obra.

Paleta

Sem qualquer espécie de hierarquia entre figura e fundo, ou entre a superfície do material e a interferência nele depositada, o dégradé dos tons das placas de madeira tem valor estético análogo ao preto das letras e às fissuras, texturas e farpas próprias dessas tábuas. Palavras escritas em nanquim não revelam, portanto, sentidos a serem decifrados pela mera leitura delas. Essas palavras são apenas um elemento entre outros, o que aponta para a constante denúncia feita por Adriana Affortunati diante da precariedade da língua. O gesto de escrever na madeira é incisivo e busca certa permanência, como se o texto pudesse finalmente se fixar em uma superfície mais resistente e duradoura, do que seria a escrita em uma simples folha de papel. O resultado, porém, é sempre a fratura dessa ilusão. O que remanesce são fragmentos pictóricos dessa vã tentativa, nos quais letras, manchas e traços se tornam desenhos capazes de aludir ao sentido dessas palavras perdidas, sem jamais capturá-lo. 

 

Dicionário

 

Contracapas de volumes enciclopédicos antigos são pregadas umas às outras para compor Dicionário. Como em outros trabalhos, a artista indica aqui a insuficiência da palavra, que, tanto do ponto de vista semântico, como do ponto de vista de sua codificação simbólica – a escrita alfabética –,  não abarca plenamente a materialidade dos objetos. São precisamente esses restos resistentes ao enquadre semântico e codificado da palavra que se elevam à condição de matéria na peça Dicionário. Nela, as palavras desaparecem e o suporte que as acolhia ganha consistência, assim como o colorido que o encobre, seu tamanho, sua condição efêmera, denunciada pelas marcas do tempo. A linguagem desta obra busca, por conseguinte, extrapolar e denunciar os limites da língua. Além disso, o alvo de Dicionário também é o repertório linguístico subentendido no próprio universo artístico. Pregos incisivos e violentos em evidência subvertem o lugar tradicional dado ao acessório suplementar, quase sempre escondido entre tela e parede. Essa composição entre pregos e livros justapostos forma um objeto simbolicamente opaco. Quase obstáculo, a compreensão natural de sua função, bem como seu manuseio se tornam impedidos. O resultado são indícios fugazes de uma língua que ainda apela para ser decodificada.  

 

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