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Querida Adriana

Para a nossa reflexão, gostaria de propor uma divisão totalmente artificial, em três eixos de interesse apontados por suas obras: ataque à ideia do feminino contida na construção de estereótipos comportamentais e sua associação com ideias de domesticidade; ataque à formas de normatização do conhecimento e codificação da linguagem. Ambos ataques explicitamente indicados pelos títulos conferidos à algumas de suas obras como “Helena”, “Misógino”, “Aracne”, ou então, “Capítulo”, “Dicionário”, “Enciclopédia”. O caráter alusivo dos títulos tensiona a materialidade das obras, materialidade feita, quase inteiramente,por objetos descartados, encontrados, coletados e colecionados, grande parte anônimos. Neste nível de significação, procuram decompor sua codificação cultural. Investigam temas facilmente localizáveis como a historia da indumentária e do design e sua implicação no condicionamento de hábitos da mulher. Você mesma, Adriana, referiu-se em uma de nossas conversas aos manuais de etiqueta e ao papel das dezoito anáguas da roupa feminina na era vitoriana.

 

Entretanto parece-me importante reconhecer um dado mais sutil, a possibilidade de um outro nível de significado mais fugaz, com o risco de não concretizar-se (basta um deslize mínimo), mas que, ao meu ver, é responsável por dotar as apropriações de objetos do mundo de qualidades poéticas. Os objetos – não eles por si próprios, mas o acúmulo deles – realizam a transição essencial entre os dois primeiros eixos e um eixo temporal. O “tempo” confere espessura à ficção. O “tempo” é o “corpo” da narrativa.

 

Um olhar excessivamente formal, exclusivamente dirigido para as modalidades artísticas, reduziria o interesse de seu trabalho, circunscrevendo-o por atitudes compositivas, superficialmente pictóricas. O uso dos objetos não se reduz a uma relação nostálgica ou evasiva, cujos sentidos almejam a uma a-historicidade, sobrevivência incorpórea, diáfana. Não. Os objetos buscam reviver tragédias e dores, traumas e emoções reais, espessas e concretamente presentes. Qual categoria de objetos, afinal? Trapos, roupas rasgadas, restos, móveis e objetos decorativos incompletos, já velhos e decompostos. Objetos que guardam marcas do uso repetitivo, que denunciam um comportamento cotidiano (ou obsessivo). “Repetição” em seu trabalho deve ser entendida como revivescência. Revive-se inúmeras tragédias anônimas, identidades que se perderam definitivamente.

 

O conteúdo trágico é declarado nas alusões feitas às personagens mitológicas. “Aracne”, por exemplo, nome que intitula a exposição. Segundo algumas versões do mito grego, trata-se de uma exímia bordadeira, razão pela qual desafia a deusa Atenas, que rege também as artes manuais e domesticas (arrogância de Aracne ou revolta contra a soberania opressora?). Ganhando ou perdendo, será sempre derrotada (autoridade dotada de força repressiva descomunal). Ao perder, é poupada da morte, mas transformada em aracnídeo (marca anatômica e repetição infinita do trauma, condenada à eterna tessitura da teia). Podemos ainda acrescentar sentidos externos ao mito, como agressividade, ameaça e, claro, fluxo de tempo no qual se constrói um emaranhado.

 

Se “corpo” e “tempo” se equivalem numa ameaçada transfiguração; se esse corpo consiste em uma volumetria feita de camadas de tecidos e objetos; comportam-se, pois, como sedimentos temporais, camadas geológicas (haveria definição equivalente em termos temporais?). Mas justamente se trata, a meu ver, de objetos que ainda não fossilizaram, não foram soterrados. Esses corpos anônimos e seus sintomas permanecem visíveis, em permanente decomposição. Como em um velório, participamos de maneira solene. Velamos, todos nós, as tragédias ocultas insinuadas pelos objetos e nossas próprias narrativas.

 

 

 

Renato Pera

 

Texto originalmente datilografado em máquina de escrever.

Dear Adriana,

 

For our reflection, I would like to propose a totally artificial division, in three axes of interest pointed by your works: attack to the idea of the feminine contained in the construction of behavioral stereotypes and its association with ideas of domesticity; Attack on forms of knowledge`s normalization and language codification. Both attacks explicitly indicated by the titles conferred to some of your works like "Helena", "Misógino", "Arachne", or, "Chapter", "Dictionary", "Encyclopedia". The elusive character of the titles stresses the materiality of the works, materiality made, almost entirely, by objects discarded, found and collected, largely anonymous. At this level of significance, they seek to decompose their cultural codification. They investigate easily localizable themes such as the history of clothing and design and their implication in the conditioning of women's habits. You, Adriana, referred in one of our conversations, to the etiquette manuals and the role of the eighteen layers in petticoats of Victorian women's clothing.

 

However, it seems to be important to recognize a more subtle fact, the possibility of another level of meaning more fleeting, with the risk of not materializing (just a minimum slip), but which, from my point of view, is responsible for endowing appropriations of objects from the world of poetic qualities. The objects - not themselves, but their accumulation - carry out the essential transition between the first two axes and a time axis. "Time" confers thickness to fiction. "Time" is the "body" of the narrative.

 

An overly formal look, exclusively directed at the artistic modalities, would reduce the interest of his work, circumscribing it by compositional, superficially pictorial attitudes. The use of objects is not reduced to a nostalgic or evasive relationship, whose senses aim at an a-historicity, incorporeal, diaphanous survival. No. Objects seek to relive tragedies and real pains, traumas, and emotions, thick and concretely present. What category of objects, anyway? Rags, torn clothes, remains, furniture and incomplete decorative objects, already old and broken. Objects that hold marks of repetitive use, which denounce every day (or obsessive) behavior. "Repetition" in your work should be understood as a revival. Relive innumerable anonymous tragedies, identities that were definitely lost. 

 

The tragic content is stated in the allusions made to the mythological characters. "Arachne", for example, the name of the exhibition. According to some versions of the Greek myth, it is an excellent embroiderer, the reason why it defies the goddess Athens, that also governs the manual arts and domestic (Arrogance of Arachne or revolt against the oppressive sovereignty?). Winning or losing, it will always be defeated (authority endowed with enormous repressive force). When lost, it is spared from death, but transformed into an arachnid (anatomical mark and infinite repetition of the trauma, condemned to the eternal texture of the web). We can also add external meanings to the myth, such as aggressiveness, threat and, of course, the flow of time in which a tangle is built. 

 

If "body" and "time" are equivalent in a threatened transfiguration; If this body consists of a volumetry made of layers of tissues and objects; Therefore, behave as geological layers (would there be an equivalent definition in temporal terms?). But it is, in my view, a matter of objects that have not yet been fossilized but have not been buried. These anonymous bodies and their symptoms remain visible, in permanent decomposition. As in awake, we participate solemnly. We see, all of us, the hidden tragedies insinuated by objects and our own narratives. 

 

 

Renato Pera 

 

Original text written with a typewriter.