O que me crio, 2008

O encontro com Adriana Affortunati [1982] aconteceu em seu ateliê na cidade de São Paulo. O apartamento pequeno estava com um tom sépia, com um ar antiquado, porém leve. Na sala acumulavam-se idéias, e ela preparava, ocupando quase todo o recinto, a obra “O que Me Crio”, em processo há quase duas décadas. A preocupação da artista em armazenar sua própria história, acumulando cartas, folhas, pequenas mensagens e etc., é de certa forma uma materialização da memória, de documentação íntima. Através de suas coleções de objetos e papéis, a idéia artística de Adriana associa a experiência tátil à experiência da imaginação, tornando-nos parte da obra.

Foi nosso primeiro contato, mas a sensação de conhecê-la há muito tempo foi imediata. Dentro de sua casa, ao lado de todos seus outros trabalhos, a instalação dividia a intensidade com todo o espaço, se mesclava com coleções de todo o tipo, e artista e obras eram quase que indissociáveis. A totalidade da artista estava ali, exposta, compartilhada, aberta.

Em seu processo, estabelece uma relação orgânica com seu material de trabalho, isto quer dizer que cada parte de sua obra é um fragmento de um instante de sua vida, não apenas materiais incorporados à superfícies. Adriana deixa um pedaço de seu DNA em cada obra, um DNA imagético e imaterial, mas apreensível pela alma... sua própria história, a própria artista, são as obras... e vice-versa. Percebemos essa comunicabilidade pela crudez dos materiais, pela forma como se encaixam na obra e tornam-se aparentes, fortes, mesmo sendo delicados. Neste ponto imagino sua feminilidade, e cada peça é uma página de um diário poético... ilegível e sensível... do ingênuo ao íntimo... da artista para nossa consciência reflexiva... nossa história.

Suas cartas estão sendo guardadas há muito tempo; pequenos bilhetes da escola, postais de amigos, de viagens, cartas pessoais, pequenas lembranças de cada dia, flores antigas, folhas, pedaços de papel, linha... terra. Materias livres, espontâneos, coletados, pessoais...

Inserida no contexto contemporâneo, a anacronia em relação ao efêmero sistema de produção ou à forma de armazenamento de mensagens atuais, é, sutilmente, o próprio conflito de identidade da sociedade, onde o valor do indivíduo é medido pela sua colocação no sistema de consumo, não pela construção diversa de sua identidade.

2008. NICHOLAS PETRUS