Livro, 2010

Falar do trabalho de Adriana Affortunati, para mim, é como descer a serra do mar, de forma cadenciada, quando a curva aumenta o desejo dos olhos, quando o abismo possui a gratidão das águas salgadas, quando tudo é verdejante e de um lampejo prata. Como não se deslumbrar com a ternura dos tecidos, com a entrega plena de delicadeza de cada costura, de cada rebarba, de cada fio que desfia, de cada mancha que se desmancha na sabedoria da cor?



Como não se deslumbrar com estes tecidos que foram feitos para os ouvidos, que começam e recomeçam o prazer de uma melodia, que fazem da pausa de uma dobra a infinitude afável do silêncio? Como não se emocionar com as rendas, com a urdidura que parece ter as mãos de Penélope, da Odisséia, que parece ter secado as lágrimas de Penépole, que parece ainda possuir o perfume de suas mãos? E como negar a simplicidade e carícia sem pudor do colar de pérolas, que percorre o corpo da obra, como se conduzisse faíscas de um fulgor que nenhum breu consegue apagar?

E, além disso, a devida percepção do momento certo para o jeans penetrar no amálgama de tantos tecidos, de ser carnal como todos os outros, de ser intrépido para logo depois receber a suavidade de uma renda, para mostrar que Adriana soube reconhecer cada timbre, cada voz que se apodera da condição do inefável, a verdadeira condição da poesia...

Fico deverás curioso para desvendar as palavras bordadas, que ora sobressaem, ora se perdem nas tramas sonhadoras do tecido, uma vez que há palavras que são feitas para cintilar como um rio ou para desaparecer como a superfície de uma pedra coberta por limo.

Por fim, devo dizer que vale muito a pena conferir esta obra, assim como as outras, que se encontram na exposição que ocorre na Casa Contemporânea e que giram todas em torno da capacidade do jeans ser moldado de acordo com diversas indagações e propostas, sempre dotadas de muita poesia.

2010. FABIO PADILHA