"Nos olhos de Adriana Affortunati, as mãos do tempo laboram a finitude das coisas. A artista espreita o trabalho da decomposição como quem contempla a verdade do mundo – o ser-para-a-morte – e deseja exibi-la. É por isso que, armada de palpos e antenas, a artista está à cata das coisas que apodrecem em silêncio, que expressam a melancolia da disfunção, das coisas encolhidas num cantinho do mundo, desprezadas, das coisas que jazem no olvido-tumba. Desse passeio apaixonado pela obra ruinosa do tempo, nasce o gesto de eleição e recolha que arranca velhos lençóis, troços de concreto, pedaços de mangueira, cascas de ovos – e outros restos – do abandono mundano, ao qual foram relegados, para entregá-los ao zelo da instauração estética. Em seu ateliê, a artista cuida para suscitar, no próprio objeto degradado, a forma da precipitação no nada, que o laboratório do tempo produz sem alarde e o temor humano da morte oculta escandalosamente. A artista catadora, portanto, em seu processo criativo, intercepta e suspende a catástrofe. O título Antes do pó expressa precisamente esse gesto que surpreende os objetos à beira do precipício. O poeta diz que as coisas são tristes consideradas sem ênfase. Essa ênfase, a artista doa para dar a ver a alegria formal insuspeitada na deformidade das coisas tocadas pelo dedo da morte."

 

FRANCISCO ROCHA

ESCRITOR | AUTHOR

Artist, Arte ; Artistic Residency; Quebec; Ewa Sad
EST NORD EST RESIDENCY. QUEBEC. FOTO | PHOTO: EWA SAD 2017

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